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Fui sozinha: Havana

por Ursulla Lodi
Fui sozinha: Havana

Eis que depois da cicloviagem mexicana junto do meu amigo Pedro e seu projeto de viagens de bicicleta e sustentabilidade, o Bike Myself – em que pedalamos mais de 1000 quilômetros descendo o México, passando por Belize (sim, cruzamos uma fronteira de bike!) – embalei minha fiel amiga em plástico bolha, assinei a papelada do visto cubano e voei para Havana, Cuba, desta vez, solita, literalmente, by myself.

Neste post divido um pouquinho desta vivência única, num incentivo feminino para o #queroviajarsozinha, em que Cuba é um convite para outras possibilidades.

Um relato de estar sozinha em Havana, Cuba

Sempre tive curiosidade sobre Cuba. Como já tinha ido para o México e não queria fazer exatamente o mesmo roteiro da outra viagem, por que não pegar um vôo de 30 minutos saindo de Cancun para Havana? Seria um presente para mim mesma decididos nos 48 do segundo tempo. A passagem, inclusive, foi comprada faltando poucos dias para a decolagem, me esticando para conseguir um sinal melhor no celular, na ilha de Cawe Caulker, Belize.

Não seria meu primeiro voo solo, já que já tinha ficado um bom tempo no Sudeste Asiático viajando comigo mesma, mas é sempre uma sensação de liberdade única. Seria  a chave de ouro para fechar a cicloviagem – me beliscando para ver se era verdade que eu estava em Cuba, sozinha e de bicicleta. 

Quando cheguei no aeroporto de Havana, parecia que tinha voltado no tempo. Primeiro pelos uniformes e pela estrutura do aeroporto, muito antiga. Depois de uma das imigrações mais diferentes que já fiz na vida e de sacar alguns cucs de um caixa eletrônico – novidade por aqui – cheguei no saguão de saída cheio e com muito burburinho. Entrei num carro da década de 50 com um gringo que conheci na imigração, uma bike desmontada (o que pode ser bem complexo de ser carregar), alforjes e um endereço anotado.

💡 Esta dica de tentar rachar o táxi com alguém é sempre útil, já que sempre tem alguma pessoa na mesma situação que você. 🙂

Perto do local de destino, em um bairro popular e muito autêntico da zona central da cidade, a primeira vista parecia um lugar tanto perigoso para quem não conhece Cuba. Tudo escuro, meio destruído, sujo. O motorista falou: é aqui. Saí do carro, sem conseguir carregar tudo e sem entender direito onde era, mas sempre com a certeza que eu conseguiria resolver quase qualquer situação que me aparecesse – com a experiência de que, muitas vezes, ter confiança em você faz toda a diferença.

Subi as escadas do clássico prédio cubano com os moradores  me olhando curiosos, talvez por ser uma menina sozinha, chegando de noite e, sobretudo, por carregar uma bicicleta, que é artigo de luxo em Cuba – tanto que várias pessoas me ofereciam propostas para comprar a minha quando andava pela cidade.

Esbaforida, toquei a campainha do último andar na grade da Casa de Hatuey, a pensão que o Yuri tomava conta. Yuri, cujo nome é uma homenagem ao astronauta Iuri Gagarin,  é um cubano muito simpático e ótimo cozinheiro, que me apresentou quase tudo que conheci por lá. Na verdade este encontro foi pura sorte. Não tive muito tempo para planejar qualquer coisa e viajei da forma como mais gosto de viajar, sem roteiro, deixando acontecer. Depois de olhar Couchsurfing, acabei achando a Casa de Hatuey no Hostel World, uma pensão cubana com refeições incluídas. Tudo simples, sem luxo algum, mas com ótimas pessoas que me pegaram pela mão e coração, transformando a minha viagem.

Yurizito

Parando para analisar melhor, essa falsa sensação de insegurança que senti é muito condicionada pela nossa realidade insegura e seus parâmetros. Porque tinha gente na rua, sentada na calçada, tentando conectar em algum wi-fi e pessoas circulando. Não se engane pelas aparências imperfeitas, a vida segue tranquilamente em Cuba. 

E o que posso falar sobre estar sozinha no país é que, no geral, Cuba é um país bem seguro para o turista, sendo muito raro qualquer tipo de crime. Em que pese a desigualdade econômica entre o turista e os locais motivar um certa malandragem –  afinal, eles não tem muito – mas muito mais na lábia do que de forma criminosa, os índices de violência são baixíssimos no país.

Para mulheres viajantes  deve ser mencionado que acontece bastante assédio. Olham muito, fazem cantadas… Era tão explícito que, mesmo andando com um amigo espanhol, até ele reparava nos olhares. O que não deixa de ser reflexo da própria curiosidade pelo diferente, numa sociedade patriarcal, claro. Mas, apesar de me sentir sempre observada, nunca me senti em perigo.

O povo é bastante cortês e simpático, está sempre puxando papo, igualmente curiosos sobre a gente. Eu não esquentaria muito a cabeça para andar sozinha a noite ou pegar táxis ou coisas do gênero, mesmo que não tenha tido muito este problema, por ter, quase sempre, companhia.

Eu sei que viajar sozinha nem sempre é fácil, ainda mais sendo mulher, em que existem sempre outras preocupações, enquanto não revolucionarmos isto tudo. Mas penso que é uma experiência tão enriquecedora, que todo mundo deveria ter ao menos uma vez na vida. E na prática, só ficamos de fato sozinhos se queremos, pois sempre encontramos outras pessoas para compartilhar, ainda mais em Cuba, conhecidamente um destino em que reúne muitos viajantes solo e gente com cabeça aberta, querendo viver essa vida de outra forma.

Por que Cuba?

Uma das perguntas que mais ouvi assim que voltei da biketrip, surpreendentemente, não tinha nada relacionado com a viagem de bicicleta em si: o que você achou de Cuba?

Como se meu curto tempo na capital do país me permitisse discorrer sobre o tema. Posso falar apenas das minhas impressões e das minhas motivações que me levaram até lá. E que fiquei com muita vontade de voltar para dar a volta na ilha de bicicleta, conhecendo zonas rurais e praias caribenhas. Tendo pouco tempo e, depois de muita coisa vivida nos últimos tempos na viagem de bicicleta, preferi ficar mais devagar, me restringindo à Havana.

“Vocês tentam entender Cuba, mas não dá para entender Cuba”. 

O que me levou para Cuba não foram seus pontos turísticos, mojitos e praias de água azul turquesa. Tem isto tudo também, mas o que me motivou à querer conhecer a ilha, foi, sobretudo, minha curiosidade de ver a realidade com meus próprios olhos. Tentar entender, ao menos um pouquinho, como seria de fato a vida no país: ilhado entre as más línguas dos que tanto falam, sem nunca ter conhecido, e as contradições das coisas boas e ruins trazidas pela própria Revolução – em que pese as consequências da exclusão promovida pelo embargo, décadas depois do fim da Guerra Fria,  que ainda dificultam as relações comerciais cubanas.

Sou da opinião que não podemos ter uma conclusão formada sem conhecer. Nos meus 7 dias em Havana, evidentemente, insuficientes para tentar compreender qualquer coisa, minha curiosidade apenas aumentou, mas consegui ilustrar melhor essas várias realidades. E a verdade… Me pareceu menos dramática do que o que os levantam muros e seus abismos sociais propagam, mas também bem menos romântica do que é contado na versão idolatrada. Mesmo conhecendo um pouquinho, uma das primeiras coisas que aprendi com Yuri, é que não é possível tentar entender Cuba.

Quem vê apenas a calçada suja, não enxerga que por aqui todos tem comida, educação, transporte, saúde e lazer, mesmo que, com dificuldades.

Uma tradição cubana: não passe debaixo da placa

O que fazer e onde se hospedar em Cuba:

A melhor dica que posso dar nesse post, não é uma lista de lugares turísticos imperdíveis. Mas sim, para você estar aberto, tentar ter em Cuba a experiência mais autêntica possível, já que, inegavelmente o local se transformou muito com o turismo.

Dê preferência para hospedagens domiciliares  na casa de locais, converse com estes. Faça os programas do dia-a-dia, deixe que eles te levem para onde gostam de ir: ir ao cinema, ao circo, dançar e se divertir, ir de ônibus até a praia, pegar a fila da Coppelia para tomar todo sorvete que você conseguir ou comer nas vendinhas de comidas em pesos cubanos. Perambular e observar a vida acontecendo podem ser as coisas mais interessantes para fazer… E lembre-se, mesmo com uma vivência mais autêntica possível, já será muito distante da realidade local.

No mais deixo minha lista do que fazer e de outras dicas úteis para outro post! 

Um muito obrigada para o Yuri, Alberto, Diana e Vinícius. <3

Que la rebeldia en la boca siempre nos bese.

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