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Biketrip: mas afinal, como é viajar de bicicleta?

por Ursulla Lodi
Biketrip: mas afinal, como é viajar de bicicleta?

Os planejamentos, perrengues e alegrias de uma cicloviagem junto do Bike Myself, num incentivo para você pedalar essa vida 

Pois bem, voltei faz pouco tempo de uma viagem de bicicleta. Foram mais de 1000 quilômetros, percorridos em cerca de 30 dias de pedal e 50 de viagem, descendo da Cidade do México até o sul do país, passando por Belize e voltando para Quintana Roo – de onde peguei um avião para Cuba, chegando em Havana muito bem acompanhada – eu  e minha bicicleta.

Depois desse pequeno feito, muita gente vinha pedindo este post, com um relato pessoal, mas eu não sabia muito bem por onde começar. Afinal de contas, após experienciar o mundinho das biketrips, em que muitos fazem epopéias, contornando o globo e cruzando continentes de bike, meus humildes quilômetros percorridos e os trechos cortados pegando ônibus de segunda classe, para poupar algumas montanhas e áreas inóspitas, me fizeram minimizar aquilo como algo corriqueiro.

Acho que precisei de um tempo para digerir tudo que tinha rolado e ver a reação das pessoas inspiradas com a minha aventura, para entender que aquilo que em um primeiro momento eu encarei como uma experiência normal, talvez tenha sido algo além, ao menos para mim. Afinal de contas, eu viajei de fucking bicicleta cortando o México inteiro ao estilo Born to be Wild.

No mínimo foi a realização de um sonho. De uma viagem que eu sempre tive vontade de fazer alguma vez na vida e achei que nunca teria coragem. Mesmo que tenha sido em um país que eu já tinha visitado, a água que passa embaixo da ponte nunca é a mesma e eu precisava provar para mim mesma, como mulher, que era capaz.

Cicloviagem Havana, Cuba

De bicicleta em Havana

Não to falando que sonhos são sempre bonitos. Tem dia que é feito descida, que eu tinha certeza que estava fazendo exatamente o que precisava fazer naquele exato instante. Pedalar. E arrepiava com o ventinho na cara, emocionava sozinha. Mas tem dia também, que tudo dá errado: pneu fura, subida pra porra, ou você simplesmente não tá num dia bom para encarar centenas de quilômetros, embaixo da soleira mexicana… Eu ouvi cólica?

Muitas pessoas acham que o esforço é físico. É físico sim. Nunca fui sedentária, sempre fui muito ativa, entre as acrobacias da vida – sou artista de circo nas horas livres – corridas e as pedaladas diárias de quem usa a bicicleta como meio de transporte, quase que exclusivamente, o que dava uma quilometragem semanal respeitável. Mas quem me conhece sabe que nunca fui atleta, sou apenas uma pessoa um pouco mais ativa que o normal, com índole de fazer as coisas de maneira diferente, satisfazendo meu corpo e mente.

Nunca subi o Horto  no pedal e nem nunca tive uma bicicleta de carbono de milhões de dólares, na verdade até achava graça dessa galera que se fantasia de ciclista, mas no dia-a-dia anda de carro, blindando-se da rua. E se quer a verdade mesmo, até pouco antes de fazer essa viagem, usava uma bicicleta de cestinha, toda colorida, bem estilo rolézinho, que ainda é meu xodó. Isso só prova que o esforço é muito mais psicológico do que qualquer outra coisa.

Na verdade viajar de bicicleta é sobre coragem. É preciso ter fé que vai dar certo, que vamos chegar no destino conforme o planejamento diário e que a aventura não é um bicho de sete cabeças para quem já tem o pedal como uma atividade orgânica.  Afinal de contas, se você pedala no trânsito da cidade grande, sabe que, de pouquinho em pouquinho, a gente acaba se tornando meio ninja para sobreviver e ainda gastar umas ondas com luz neon, sem as mãos e na contra mão. Não obstante, a biketrip ser uma experiência completamente diferente da rotina e exigir preparo, que não pode ser subestimado, já que vai ter dia que vai ser punk e eu to falando de três dígitos de quilômetros.

Akumal, Quintana Roo

A chegada no caribe, com a minha Mystery Machine em Akumal, Quintana Roo, México

Mas pra contar mais sobre essa aventura preciso compartilhar um pouco de como cheguei até aqui.

A bicicleta entrou na minha vida tarde – aprendi criança, mas não era algo que tinha no sangue. Na verdade, foi na adolescência que tirei minhas próprias rodinhas, dando minhas voltinhas, por ai. Aos poucos o que era lazer se tornou rotina, quando virou locomoção – de tanto andar no quadro, resolvi pedalar. E mudou a minha vida.

Fui pedalando cada vez mais e quando vi, não usava mais outro meio de transporte. Até hoje não tenho nem carteira de motorista. A liberdade e a anarquia na locomoção viraram remédios para curar o coração e a cuca, para deixar o caminho mais leve, para ser eu e empoderar-me. Virou estilo de vida. Nesse momento que chegou o convite de um amigo empreendedor querido, o Pedro do Bike Myself, para acompanhá-lo e ajudá-lo em sua próxima e quarta expedição, para o México.

Primeiro fiquei animada. Seria a oportunidade perfeita para concretizar a viagem de bicicleta com alguém que já tinha muita experiência no assunto. Sem falar que o Bike Myself não resumiria a cicloviagem apenas ao turismo e à auto-descoberta – o que por si só já seria incrível – já que o projeto é um disseminador de iniciativas globais e locais ligadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

Nossa meta seria utilizar a biketrip como porta de entrada para abordar o impacto sustentável, cujo principal parceiro, para esta expedição mexicana, seria a AIESEC México, conectada com a AIESEC Brasil, para quem produziríamos conteúdo. Trabalhar com algo que acreditamos, sobretudo tratando-se de Direitos Humanos, foi, sem dúvidas, um bom combustível – junto com as bananas, é claro. 

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Mas depois, é normal, vem o medo. Será que to pronta? Afinal, não sou ciclista, ciclista, sou uma pessoa normal. Teve momentos que achei até que não voltaria viva – a exagerada! Mas acreditei. Comecei a rodar com uma bicicleta fixa do Pedro, e a relação com a pedalada só evoluiu. Finalmente entendi o sentimento que a galera da fixie tem, de conexão com a bicicleta, já que ao pedalar sem parar, a perna e a máquina parecem que viram um só. Que coisa maravilhosa!

Me preparei pro México, apenas intensificando os treinos que já fazia e dando alguns pedaladões, vez em quando, confiante que o corpo acostumado aguentaria. E fui com a cara e a coragem, nenhum planejamento e, pra completar, com as economias muito apertadas.

A bicicleta que rodaria por lá só conheci na Cidade do México e se eu falar que meu primeiro contato com ela já foi com os alforjes montados, para o primeiro dia de pedal, não estarei mentindo. Ah, falando em alforjes esta foi uma outra novela. Eles só chegaram nos 48 do segundo tempo, na véspera de começarmos o nosso deslocamento, saindo da capital mexicana, onde tínhamos feito base por um tempo, nos preparativos finais e trabalhando para a AIESEC, e onde deixamos o restante da bagagem antes de descer o país. Em resumo, fui quase que na fé.

Logo no primeiro dia pedalamos de cara 108 quilômetros com subida moderada e descobri que o alforje parece te puxar pra baixo no plano inclinado. Não foi nada fácil, sobretudo, pois a pior parte da viagem é sempre sair da cidade grande. A importância de ir leve, levando apenas o extremamente necessário, como sempre digo, nunca foi tão real. Mas depois da subidera veio uma descida enorme, de cerca de 30 quilômetros, para fechar o primeiro trecho com ar de animação.

Aos poucos, a gente vai criando casca. Tem dia que pedala pra caramba – chegamos a pedalar mais de 130 quilômetros em um trecho. Mas depois vêm  outros dias de folga pro corpo, afinal de contas estamos viajando e trabalhado, o que acaba deixando tudo mais tranquilo.

Fora o alívio de ir entrando no interior do país, com os chicos dando tchauzinho pela estrada. Isso é algo incrível: rola muito incentivo no caminho, quando percebem que você está de fato viajando de bicicleta. Nunca tinha me sentido tão acolhida, recebendo tanto afeto de desconhecidos… Me senti em casa e muito grata por ser também América Latina.

 

Crianças, México, San Juan Chamula, Chiapas

Os chiquitos na beira do cemitério de San Juan Chamula, Chiapas, México

E o mais enriquecedor dessa viagem é que quase tudo para mim foi completa novidade. Não só por viajar de bike, mas por fazer muito CouchSurfing e utilizar bastante também o Warm Showers – uma plataforma similar ao CouchSurfing, exclusiva para viajantes de bike – sem falar de todo o apoio do pessoal da AIESEC. O retorno ao México foi uma experiência muito mais especial por estar em contato direto com os locais e seus hábitos, ainda mais amáveis com os bike travelers. Estes nos deram uma aula de generosidade, que levei de volta na bagagem. Dê para o universo que ele te retorna!

Couch Surfing México, Puebla Caquitário

Eu e Angelita, uma das nossas hosts do CouchSurfing, em Zapotitlán Salinas, Puebla, México

Mas nem tudo são flores e aí que entra o psicológico e a importância do planejamento diário, sobretudo, para ver as inclinações, segurança e as condições da estrada que será percorrida no Google Maps. Teve muita camara trocada no acostamento – mesmo evitando ao máximo terrenos com cascalhos ou terra – teve muito sol rachando o coco, teve choro, teve bicicleta caindo dentro do mar e, acredite se quiser, teve até alforje atropelado por um ônibus, na rodoviária de Belize City, botando em jogo muito do material que a gente tinha produzido.

Teve um dia que foi tenso e até compartilho aqui, quando nos pararam no acostamento para nos falar que a estrada que estávamos era muito perigosa. Pedalei toda tensa, que nem uma maluca pelos 60 quilômetros seguintes, como se aumentar 10 km/h no velocímetro fosse mudar alguma coisa… Ficou a lição que é melhor confiar no planejamento prévio e depois relaxar, acreditando que tudo vai dar certo. No final sempre dá e o importante é se manter unido, com o coração tranquilo, para poder curtir o rolé.

San Cristóbal de Las Casas, Chiapas, Bicicletas

Eu e Pedro nos murais zapatistas de San Cristóbal de Las Casas, Chiapas, México

Mas no saldo geral, descemos o México com nossas próprias perninhas e até atravessamos uma fronteira, para Belize de bike chegando no mar azulzinho caribenho. Foi uma sensação única carimbar o passaporte entrando por terra e de b-i-c-i-c-l-e-t-a em outro país…! Até porque ir para Belize não era algo que tínhamos em mente em nosso planejamento original.

Não preciso dizer que foi uma experiência de vida incrível, tendo como chave de ouro minha última semana de Fui Sozinha, em Havana. Sem dúvidas, voltei fluente no espanhol e com muita história pra compartilhar por aqui. Que rolé! 

Deixo aqui o meu obrigada ao Pedro, por compartilhar comigo essa expedição do Bike Myself, nas alegrias e nos perrengues!

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“How could I forget to mention the bicycle is a good invention”. Meninas em Caye Caulker, Belize.

GRL PWR: Você sabia? 

A bicicleta foi e ainda é um dos elementos mais emblemáticos da emancipação feminina: da new woman desde o final do século XIX, incentivando o incremento do uso da calça e a liberdade de locomoção, até a atualidade, em que carrega ainda toda esta simbologia de empoderamento feminino. Sabemos que, infelizmente, ainda existe uma barreira muito grande no uso de bike por gênero, estatisticamente há menos mulheres pedalando. E isso se dá por diferentes motivos e reflexos sociais, mas, sobretudo, pelo assédio no trânsito, falta de incentivo por parte da sociedade e outros medos de exposição à violência nas ruas. Mas temos que ser sempre a mudança que acreditamos.

Yes, we can! <3

Para saber mais dessa aventura: @bikemyself, @bloggiramundo e @ursullalodi. E tem até playlist do Bike Myself México, no Spotify, para dar o gás nas pedaladas e vôos pelas estradas desta vida. 🙂

Para inspirar: #everydayamericalatina, @thebikeramble, @vivendoelcamino, @lizzieandstevietravel, @tripbicycle.

Avoa! 

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