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Como e porquê fazer um passeio de barco no Rio Ganges, em Varanasi

por Gabriela Mendes
Como e porquê fazer um passeio de barco no Rio Ganges, em Varanasi

Saiba todas as dicas de como fazer o passeio de barco no Rio Ganges e porque andar de barco em Varanasi vai muito além de uma atração turística. Entenda como o passeio também representa uma forte questão política dos barqueiros, que enfrentam uma crise com o governo indiano e têm, como principal inspiração, uma ativista mulher. 

Observar Varanasi flutuando em um barco, é uma das experiências marcantes na cidade. Na melhor hora para o passeio, no nascer do sol, às 5h, é possível ver Banaras, como é chamada pelos indianos, acordando, com uma neblina cor de rosa e o canto dos pássaros. Aos poucos, pessoas vão aparecendo no ghaats* para tomar banho, escovar os dentes, meditar, fazer as oferendas à Mãe Ganga – o dia, para muitos hindus, só começa depois desses pequenos rituais. Por aqui a chama de Shiva nos ghaats de cremação não pára, dia e noite; e ver isso tudo de outra perspectiva é especial.
*Os ghaats são degraus que levam a um rio ou lago, usados para cerimônias religiosas.

Porém, toda mágica de admirar uma das cidades mais sagradas do mundo acordando têm questões que merecem ser de conhecimento dos turistas que buscam fazer uma viagem responsável e apoiar as comunidades locais. O controverso plano de limpeza do Rio Ganges, criado pelo governo sem consulta popular, afeta diretamente os Nishads, a casta* de barqueiros, que têm, nas águas do rio, sua fonte de vida. Além dos desafios do turismo predatório com a implementação dos novos “cruzeiros do Ganges”, botando em risco a tradição e a profissão da casta.
*apesar de proibida por lei, a cultura do sistema de castas ainda é muito presente na cultura indiana, sobretudo no norte do país. 

⭐ No final da matéria, depois da nossa contextualização sobre tudo que envolve os passeios de barco em Varanasi, colocamos um curta documental sobre a crise dos Nishads, feito pelo nosso querido anfitrião do Couchsurfing, Shunya, e sua equipe do site The Sabha

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Nascer do sol no Rio Ganges, em Varanasi

Como fazer um passeio de barco no Rio Ganges, em Varanasi

É fácil conseguir um passeio de barco, basta chegar às margens do Ganga, nos ghaats, onde dezenas de barqueiros vão te oferecer passeios, com infinitas negociações, horários, vantagens. É bom saber informações que vão fazer diferença na hora de negociar, pra não ser pego de surpresa.

Horário: os melhores horários para fazer o passeio são no nascer, por volta das 4-5h (nossa escolha) e no pôr do sol, por volta de 17-18h, quando também acontecem as principais cerimônias para a Mãe Ganga. Essas cerimônias acontecem diariamente.

Preço: o preço oficial do governo é 250 rúpias (US$4) por barco, que cabe até 4 pessoas, mas esteja preparado para negociar, já que pode chegar até 400 rúpias (US$6). Esse valor corresponde a 1h de passeio. 

É importante:
💡Priorizar barcos a remo, para minimizar a poluição no rio. Além disso, barcos a remo não são barulhentos e melhores para apreciar o nascer do sol, ouvindo os mantras cantados pelos fiéis.
💡Jamais comprar os chamados de “cruzeiros do Ganges”, nós explicamos o porquê abaixo.
💡Não caia no golpe da “ONG dos ghaats de cremação”. Quando você estiver no passeio de barco ou andando perto deles, várias pessoas vão te oferecer explicações históricas sobre a prática, em troca de doações para um suposto projeto social, que fica ali perto. É um típico golpe de Varanasi que não vai para ONG nenhuma, e sim pro bolso dos envolvidos.
💡 Não faça o passeio sem negociar antes, essa dica serve pra tudo na Índia. 

Como nós fizemos o passeio de barco pelo Rio Ganges

Nós optamos pelo passeio oferecido no nosso hostel de Varanasi, o Moustache. Ele durou cerca de 4 horas e, além do passeio de barco durante o nascer do sol, fomos a uma pequena ilha do outro lado do rio, tomamos um delicioso e apimentado café da manhã tradicional, percorremos as ruelas estreitas, tudo sendo contextualizadas por um guia, que era Nishad e nos explicou  sobre a arquitetura e história de Banaras. O legal era que o guia era jovem, algo raro para a os Nishads, já que a heridetariedade da profissão está se perdendo.
💡  O tour custou 600 rúpias (US$8,5) por pessoa.
⭐  Veja mais no site do hostel.

Cerimônia do nascer do sol para a Mãe Ganga

Sobre Varanasi e porque o Ganga é um rio sagrado

O Ganga abastece mais de 400 milhões de pessoas na Índia desde a sua nascente, nos Himalaias até onde deságua, no Golfo de Bengala. Para os hindus, ele representa a divindade feminina, a Mãe Ganga, que purifica os pecados terrenos. Em seus 2,5 mil quilômetros de extensão, sendo um dos rios com mais volume de água no mundo, umas das cidades por onde ele passa é Varanasi.

Varanasi, por sua vez, é a mais sagrada das sete cidades hindus, é a cidade de Shiva, deus destruidor de todos os males. Para um fiel, é imprescindível que ele vá à Banaras pelo menos uma vez na vida, para alcançar a purificação espiritual. Morrer na cidade é o que há de mais honroso para um hindu e, por isso, estar por lá é o que há de mais intenso em uma viagem pela Índia, onde vida e morte convivem, lado a lado, já que muitos corpos vêm de diversos lugares da Índia para serem cremados em seus ghaats, com as cinzas jogadas no rio, além de muitas pessoas passarem seus últimos momentos de vida por lá.

Todos os dias são realizadas cerimônias no nascer e no pôr do sol para o Ganges, pois os hindus acreditam que, se fizerem oferendas e orarem pela Mãe, ela os presenteará de volta, com felicidades e realizações. Anualmente, passam por lá mais de cinco milhões de turistas indianos e 300mil estrangeiros em Varanasi, além da impressionante população de 3,5 milhões de habitantes.

O Rio Ganges é onde os rituais de limpeza espiritual são realizados, com fiéis tomando banho, escovando os dentes, lavando roupas, fazendo oferendas, participando das cerimônias de cremação de entes queridos. Antigamente era comum ver corpos boiando no rio.  Isso acontecia, principalmente, porque as famílias mais pobres não tinham dinheiro para cremar seus familiares, mas também queriam que o corpo tivesse um destino sagrado e, por isso, jogavam seus corpos no rio. Atualmente, tal prática diminuiu com a criação de crematórios populares e leis que proíbem tal costume.

Corte de cabelo antes do banho purificante no Ganges

Um banho um tanto quanto controverso, em um dos rios mais poluídos do mundo

A poluição no Ganga e em Varanasi

Além de todos os pecados que são lavados ao mergulhar no Ganges, o rio é extremamente poluído por esgoto, lixo industrial e tudo mais que é jogado neles, todos os dias, desde cinzas, corpos a oferendas. A situação começou a ficar crítica a partir dos anos 90, com o crescimento descontrolado de uma população de capitalismo em desenvolvimento, quando o rio começou a ser considerado impróprio pela OMS e um dos mais poluídos do mundo.

O Ganga é a bacia hidrográfica mais populosa do planeta e tem uma biodiversidade rica, com mais de 140 espécies de peixes, golfinhos e tartarugas. É difícil imaginar toda essa vida quando se está em Varanasi, onde o rio parece morto e tem uma cor verde oliva. Mas, visitando outros lugares, como Rishikesh, dá para ter noção da exuberância do Ganga, com suas águas cristalinas.

O que mais agrava a poluição é o lixo industrial, porém milhares de oferendas são depositadas no rio todos os dias pelos fiéis. Para os hinduístas mais radicais, a Mãe Ganga é tão sagrada, que ela tem o poder automático de se purificar pela fé e pelas orações, o que gera um paradoxo entre tradição e crise ambiental.

Junto às águas poluídas do Ganga, o ar de Varanasi dá a cidade o título de uma das mais poluídas do mundo. De fato, não é fácil respirar por lá, é pesado, com cheiro de fumaça e ficar preso em um trânsito em Baranas é o mesmo que fumar compulsivamente várias caixas de cigarro. Fora do centro turístico, montanhas de lixo compõe compõem o cenário, com assentamentos e muita pobreza. Contradições de um destino que eu considero imprescindível na Índia, mas nada fácil de vivenciar.

Entenda a crise dos Nishads e porquê é tão importante apoiar os barqueiros de Varanasi

Os barqueiros que oferecem esses passeios pertencem à casta dos Nishads e o trabalho é passado há gerações. As águas do Ganges, além de sagradas, também representam o trabalho e o sustento dos milhares de barqueiros que vivem às suas margens, que também têm como principal sustento a pesca.

Em 2017, os Nishads fizeram uma greve de 10 dias exigindo uma posição do governo por questões como a falta de consulta popular no Plano de Limpeza do Ganges, que se apropria de suas terras, proíbe a pesca e afeta diretamente na manutenção da pobreza. Veja abaixo algumas das principais questões:

Plano de Limpeza do Ganges e construção do Porto de Varanasi

Uma das grandes polêmicas é o plano de ação para a limpeza do Ganges, chamado de Clean Ganga Mission, estabelecido pelo Primeiro Ministro, Narendra Modi. 

Porém, o projeto foi executado sem a consulta popular e fere as tradições locais, sem soluções práticas. Os barqueiros, que têm como principal meio de subsistência a pesca, foram proibidos de realizar a atividade em locais tradicionais, além das terras, que pertencem às famílias há gerações, serem desapropriadas e intituladas como santuários da biodiversidade, proibindo o plantio de alimentos. Além disso, em 2018 foi construído um porto em Varanasi, também na terra dos Nishads.

Para minimizar os impactos à comunidade, após a greve, o governo prometeu financiar motores novos, menos poluentes nos barcos, o que não foi cumprido. Também criou novas profissões para os Nishads, como guardas fluviais, porém com pouquíssima utilidade prática. 

Com a decadência dos empregos tradicionais e devido ao sistema de castas indianos milenar, os Nishads têm grande dificuldade de se inserir na sociedade com outros funções. A marca das castas é tão forte que, mesmo tendo uma graduação universitária, é difícil concorrer no mercado de trabalho ao lado de castas superiores, alimentando a manutenção da pobreza. Sem contar que, por conta desse ciclo, a ascenção dos Nishads no governo é praticamente nula, mesmo eles representando 26% da população do estado de Uttar Pradesh, onde está localizado Varanasi.

Cruzeiros no Ganga

Outro ponto grave para os barqueiros de Varanasi foi a criação de cruzeiros, barcos climatizados, modernos, que fazer tours no rio. Além da bizarrice de ter embarcações com uma proposta e estética totalmente descoladas dos entornos, as empresas são estrangeiras e ferem diretamente a fonte de renda dos barqueiros tradicionais, já que o lucro vai, principalmente para fora da Índia.

💡 Aqui estão algumas empresas de cruzeiros para você evitar: Nordic Cruise Line.
💡 Como viajante consciente, é importante apoiar a comunidade e a tradição milenar dos Nishads. Por isso, opte pelos barqueiros tradicionais de Banaras. 

Liderança Feminina

É interessante os Nishads terem como principal inspiração Phoolan Devi, uma mulher, já que o emprego de barqueiros é quase que exclusivamente masculino. A polêmica ativista, chamada de Bandit Queen (“Rainha Bandida”), pertence à casta  dos Nishads e passou por todas as barbaridades possíveis e imagináveis que uma sociedade com desigualdades de gênero pode proporcionar: como casamento infantil, estupro coletivo, sequestro e, por fim, seu assassinato. 

Depois de se apaixonar e fugir por um membro de uma gangue, que atuava num estilo Robin Hood ou Lampião de ser, se tornando popular na mídia indiana, ela se entregou em 1981, condenada por mais de 48 crimes. Após 11 anos na prisão, ela foi solta e eleita para o parlamento duas vezes em Mirzapur, uma cidade próxima à Varanasi. Sua maior missão era acabar com a violência de castas, minimizando as desigualdades na Índia.

Em 2001 ela foi assassinada, porém continua presente no imaginário dos barqueiros como força feminista inspiradora para conquistar a igualdade de direitos.

⭐ Se quiser saber mais, veja o filme sobre a vida da Phoolan Devi no Youtube.

Phoolan Devi, a Bandit Queen

⭐ Em Varanasi, nós também fizemos Couchsurfing, nosso host foi o Shunya, que é ativista. Trocamos muito com ele sobre a crise dos barqueiros e sobre questões políticas locais – foi através dele, inclusive, que conhecemos à Associação de Mulheres de Sarnath (que contamos mais neste post – em breve!). O Shunya escreve e produz documentários para o site The Sabha

Para saber mais sobre a crise dos Nishads, veja o curta doc que ele produziu: 

Saiba mais sobre a nossa viagem de dois meses pela Índia

⭐ Empodere: o budismo de Sarnath e a Associação de mulheres Rajbhar, em Varanasi
⭐ Resumo dos destinos por onde passamos e projetos que visitamos – Gira Mundo na Índia
⭐ Sakha Cabs, o primeiro projeto que tivemos contato – Empodere: Do aeroporto de Déli para a cidade com a Sakha Cabs
⭐ Guia de Déli: nossas dicas sobre a capital da Índia
⭐  Old Delhi de bicicleta: como foi a experiência de pedalar na capital da Índia

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